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Lula evita confronto diplomático com Trump após saída de Flávio Bolsonaro para os EUA

Governo brasileiro não pretende intervir no caso, apesar das notícias de que um funcionário da Casa Branca terá ajudado a organizar a viagem do senador. Planalto considera que o episódio deve ser tratado pela Justiça e procura preservar as relações comerciais com Washington.

Marta NkosiBrasília4 min de leitura3 comentários

Lula evita confronto diplomático com Trump após saída de Flávio Bolsonaro para os EUA

O Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, decidiu manter-se afastado da polémica em torno da saída do senador Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, apesar das notícias que apontam para um eventual envolvimento de pessoas próximas do Presidente norte-americano, Donald Trump, na organização da viagem.

Segundo informações publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo, a equipa de Lula considera que uma intervenção directa do chefe de Estado brasileiro poderia provocar um desgaste desnecessário nas relações diplomáticas entre Brasília e Washington, sobretudo num momento em que os dois países procuram manter negociações comerciais.

As notícias avançadas pelos jornais norte-americanos The Wall Street Journal e The New York Times indicam que Jason Miller, funcionário ligado à área de comunicação da Casa Branca, terá providenciado o jacto particular utilizado por Flávio Bolsonaro para viajar para os Estados Unidos. A informação terá sido igualmente confirmada à Folha por um aliado do senador.

Miller mantém ligações à família Bolsonaro desde o período em que esteve à frente da rede social conservadora Gettr. Em Setembro de 2021, chegou a ser ouvido pela Polícia Federal brasileira, no âmbito de uma investigação relacionada com actos antidemocráticos.

Governo brasileiro afasta intervenção presidencial

De acordo com fontes do Palácio do Planalto citadas pela imprensa brasileira, Lula considera que eventuais medidas relacionadas com a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil devem ser conduzidas pelas autoridades judiciais, e não pela Presidência da República.

A orientação transmitida aos membros do Governo é evitar declarações que possam ampliar a controvérsia e comprometer as relações com a administração norte-americana.

O Executivo brasileiro pretende igualmente preservar as negociações comerciais com os Estados Unidos, incluindo as discussões relacionadas com as tarifas aplicadas aos produtos brasileiros.

Na avaliação de aliados de Lula, Flávio Bolsonaro poderá estar a tentar envolver o Presidente brasileiro numa disputa política que acabe por prejudicar o relacionamento entre Lula e Trump.

A deslocação do senador para os Estados Unidos ocorreu depois de ter sido intimado pela Polícia Federal, a 26 de Outubro, a entregar os passaportes, no âmbito de uma investigação sobre um alegado esquema de branqueamento de capitais envolvendo plataformas de apostas desportivas.

Antes de chegar ao território norte-americano, Flávio passou pela Argentina e pelo Equador.

Entretanto, na quarta-feira, 28 de Outubro, o senador divulgou uma carta na qual se apresentou inicialmente como o verdadeiro Presidente eleito do Brasil, tendo posteriormente alterado a designação para líder do país.

Nas declarações, Flávio contestou os resultados eleitorais, alegando fraude, mas sem apresentar provas que sustentem essa acusação.

Lula procura evitar desgaste com Washington

Apesar de Trump ainda não ter reconhecido expressamente a vitória eleitoral de Lula, o Presidente norte-americano manifestou disponibilidade para manter contactos com o homólogo brasileiro.

A equipa do Presidente brasileiro considera que uma exigência pública de reconhecimento da vitória poderia transmitir uma imagem de fragilidade diplomática, razão pela qual defende uma abordagem pragmática.

O Governo também destaca que partidos de diferentes quadrantes políticos, incluindo forças ligadas ao Partido Liberal (PL), reconheceram o resultado eleitoral, assim como o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques.

Entre os aliados de Lula, existe a avaliação de que a saída de Flávio Bolsonaro para o estrangeiro poderá enfraquecer a capacidade de mobilização da oposição e dificultar a definição de uma nova liderança política.

O senador obteve 59,8 milhões de votos nas eleições presidenciais de domingo, 25 de Outubro, mas acabou derrotado por Lula, que venceu com uma vantagem de 3,6 pontos percentuais.

Segundo a análise de aliados do Presidente brasileiro, a deslocação de Flávio para os Estados Unidos poderá contribuir para uma reorganização das forças opositoras, que terão agora de encontrar uma figura capaz de representar o espaço político conservador numa futura disputa presidencial.

Lula, por sua vez, procura concentrar a sua atenção na condução do novo mandato e evitar que a polémica envolvendo a família Bolsonaro se transforme num novo foco de tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos.

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