Acidente ferroviário em Espanha causa 68 mortos e levanta suspeitas sobre falhas na sinalização
Investigação aponta para uma avaria informática e uma autorização do centro de controlo da Adif para que um comboio AVE retomasse a marcha. Entre o primeiro alerta e a colisão decorreram 17 minutos decisivos.

A colisão entre um comboio de alta velocidade AVE, da Renfe, e uma composição da Iryo, ocorrida na quarta-feira, 28 de Outubro, no município de Urda, província de Toledo, em Espanha, provocou pelo menos 68 mortos e mais de uma centena de feridos, segundo os balanços divulgados pelas autoridades citadas pela Euronews.
O acidente aconteceu por volta das 8h53, ao quilómetro 118 da linha de alta velocidade Madrid-Sevilha, quando o AVE embateu na traseira do comboio da Iryo, que se encontrava imobilizado na mesma via.
As primeiras informações sobre a ocorrência apontam para uma possível falha no sistema de sinalização ferroviária, estando também sob investigação as decisões tomadas pelo centro de controlo da Adif, empresa pública responsável pela infraestrutura ferroviária espanhola.
Segundo a reconstituição divulgada pela Euronews, o primeiro incidente ocorreu por volta das 8h30, quando uma falha informática nas comunicações interrompeu o funcionamento do sistema de segurança LZB num troço de aproximadamente 63 quilómetros da linha Madrid-Sevilha.
Este sistema permite a comunicação entre a infraestrutura ferroviária e os comboios, contribuindo para a supervisão do tráfego e para a manutenção das distâncias de segurança.
A avaria afectou seis composições, obrigando à paragem ou à adaptação da circulação. Entre os comboios envolvidos estavam o Iryo 6076, com 147 passageiros, e o AVE 2080, da Renfe, que transportava 397 pessoas.
Apesar da falha técnica, a investigação procura determinar por que razão os procedimentos alternativos de segurança não impediram que duas composições acabassem por ocupar o mesmo troço ferroviário.
Ordem emitida em Atocha está no centro das averiguações
Um dos principais pontos da investigação está relacionado com a autorização dada pelo centro de controlo da Adif, localizado na estação de Atocha, em Madrid, para que o AVE retomasse a circulação.
De acordo com as comunicações citadas pela Euronews e pelo jornal El País, às 8h36 um controlador autorizou o maquinista do AVE a prosseguir sob o sistema de bloqueio por sinalização lateral (BSL), indicando-lhe que circulasse em marcha normal.
A diferença entre os regimes de circulação é considerada relevante para o apuramento das circunstâncias do acidente. Em marcha à vista, o maquinista deve adaptar a velocidade de forma a conseguir parar perante qualquer obstáculo, estando prevista, nas condições descritas, uma velocidade máxima de 40 quilómetros por hora.
Já a autorização para circular em marcha normal permitiu ao AVE prosseguir sem essa mesma limitação específica.
O ministro espanhol dos Transportes, Óscar Puente, considerou inexplicável a decisão de permitir a retoma da circulação naquelas condições, segundo as informações divulgadas pela imprensa espanhola.
Os 17 minutos que antecederam a colisão
A sequência temporal das comunicações constitui um dos elementos centrais para compreender como ocorreu a tragédia.
8h30: uma avaria informática afecta o sistema LZB e obriga vários comboios a parar ou a adaptar a circulação.
8h36: o centro de controlo da Adif autoriza o AVE 2080 a retomar a marcha em regime normal, utilizando o sistema BSL.
8h41: a maquinista do comboio Iryo informa o centro de controlo de que a composição permanece parada à entrada de Urda devido a problemas de transmissão.
8h48: a maquinista volta a contactar Atocha para comunicar que não consegue reiniciar o sistema LZB e que o comboio continua imobilizado.
8h53: o AVE embate na traseira do Iryo.
As comunicações divulgadas levantam questões sobre a forma como os avisos foram tratados e por que razão não terá sido transmitida uma ordem para reduzir a velocidade ou parar o AVE após a confirmação de que o outro comboio permanecia imobilizado.
Os registos de circulação, as gravações das comunicações e as caixas negras das duas composições deverão ajudar a esclarecer as decisões tomadas durante o período que antecedeu o acidente.
A investigação judicial foi entregue ao Juízo de Primeira Instância e Instrução número 2 de Orgaz, na província de Toledo, e decorre sob segredo de justiça.
Entre as medidas determinadas estão a restrição do acesso a uma faixa de dois quilómetros da linha ferroviária em torno do local do acidente, a preservação dos vestígios e a apreensão das caixas negras dos comboios.
A Polícia Judiciária deverá ainda recolher informações no centro de controlo da Adif, incluindo dados relativos à circulação ferroviária e às comunicações efectuadas pelos operadores.
Em paralelo, está prevista uma investigação técnica independente para determinar as causas do sinistro e formular eventuais recomendações destinadas a reforçar a segurança ferroviária.
Embora a hipótese de erro humano tenha sido considerada pelas autoridades governamentais, ainda não foram estabelecidas conclusões definitivas sobre as causas do acidente nem determinadas eventuais responsabilidades individuais.






