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Fusão Galp-Moeve levanta dúvidas sobre influência estratégica da Sonangol na Europa

RedacçãoLuanda4 min de leitura3 comentários

Fusão Galp-Moeve levanta dúvidas sobre influência estratégica da Sonangol na Europa

A fusão dos negócios de refinação e distribuição de combustíveis da Galp e da Moeve está a suscitar preocupações sobre o futuro da influência económica de Angola no sector energético europeu. Uma análise publicada pelo Maka Angola questiona a posição da Sonangol, accionista indirecta da petrolífera portuguesa, e alerta para os riscos de o país perder influência sobre activos industriais estratégicos sem garantias de novos investimentos em território angolano.

A operação anunciada pela Galp e pelos accionistas da Moeve prevê a integração de actividades de distribuição de combustíveis, refinação, petroquímica e desenvolvimento de energias de baixo carbono na Península Ibérica, através da criação de duas estruturas empresariais distintas.

O projecto contempla a criação da RetailCo, dedicada à distribuição de combustíveis, mobilidade eléctrica e serviços associados, e da IndustrialCo, responsável pelos activos industriais, incluindo refinação, petroquímica, comércio de produtos energéticos e combustíveis de baixo carbono.

Segundo a informação divulgada pelas empresas, a RetailCo deverá ser controlada em partes iguais pelas duas partes, enquanto a Galp deverá conservar uma participação superior a 20% na IndustrialCo.

A principal questão levantada pela análise publicada no Maka Angola prende-se com o papel da Sonangol no processo e com a capacidade de Angola para defender os seus interesses estratégicos.

A petrolífera angolana detém uma participação indirecta de cerca de 17% na Galp, uma posição que, ao longo dos anos, representou uma ligação relevante de Angola ao mercado energético europeu.

O artigo, assinado por Rui Verde, considera que a reorganização empresarial poderá reduzir ainda mais a influência angolana sobre activos industriais importantes, sobretudo se a nova estrutura de controlo passar a depender maioritariamente das prioridades financeiras dos accionistas internacionais.

Entre os investidores ligados à Moeve estão a Mubadala Investment Company, fundo soberano de Abu Dhabi, e o Carlyle Group, uma gestora internacional de investimentos. A análise sustenta que estas entidades tendem a orientar as suas decisões segundo critérios de rentabilidade e retorno financeiro, sem um compromisso específico com os interesses económicos de Angola.

Um dos argumentos favoráveis à operação é a possibilidade de a Galp libertar recursos para reforçar investimentos na exploração e produção de petróleo, incluindo um eventual regresso a projectos em Angola.

Contudo, a análise considera que não existem garantias de que os recursos libertados sejam canalizados para o mercado angolano. A Namíbia, onde a Galp tem interesses associados às descobertas petrolíferas na região de Mopane, e o Brasil, com o potencial do pré-sal, são apontados como destinos concorrentes na disputa pelo investimento da empresa.

Neste cenário, Angola poderá enfrentar dificuldades para atrair novos capitais, caso não ofereça condições competitivas e uma estratégia clara para o desenvolvimento do sector petrolífero.

A questão ultrapassa, assim, a rentabilidade da participação da Sonangol na Galp e coloca em discussão a capacidade do Estado angolano para definir objectivos de longo prazo para os seus investimentos internacionais.

Outro aspecto destacado no artigo é a ausência de um posicionamento público do Governo angolano e da Sonangol sobre a operação, segundo a informação apresentada pelo autor.

Em Portugal, o Governo manifestou disponibilidade para permitir o avanço da fusão, desde que seja salvaguardada a importância estratégica da refinaria de Sines, considerada a única refinaria de petróleo em funcionamento no país.

A análise questiona se Angola dispõe de uma posição negocial definida para proteger os seus interesses e evitar que a reestruturação reduza a relevância da participação angolana no sector energético europeu.

Para o autor, a operação deve ser avaliada não apenas pelos ganhos de eficiência empresarial, mas também pelas suas consequências económicas e estratégicas para Angola e Portugal.

O debate coloca uma questão central: que benefícios concretos poderá Angola retirar desta reorganização e que garantias existem de que a Sonangol continuará a ter influência relevante nas decisões relacionadas com os activos em causa?

Até que sejam conhecidos os termos definitivos da operação e o posicionamento oficial das partes envolvidas, o alcance das consequências para Angola permanece sujeito a avaliação.

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