Espião do SIS foi condenado por vender segredos à Rússia em histórico caso de espionagem
Um dos casos de espionagem mais marcantes da história recente de Portugal voltou a ganhar…

Um dos casos de espionagem mais marcantes da história recente de Portugal voltou a ganhar destaque com a divulgação de novos detalhes sobre a trajetória de Frederico Carvalhão Gil, antigo quadro do Serviço de Informações de Segurança (SIS), condenado por entregar informações confidenciais aos serviços secretos russos em troca de dinheiro.
A investigação teve início em 2015, depois de os serviços de inteligência portugueses detetarem falhas em operações relacionadas com alvos ligados à Rússia. As suspeitas intensificaram-se quando a Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos informou Lisboa de que Carvalhão Gil mantinha encontros frequentes com agentes do Serviço de Inteligência Externa da Federação Russa (SVR).
Na altura, o funcionário era analista da área de contraterrorismo do SIS e tinha acesso a informação sensível sobre a NATO, incluindo planos e exercícios de gestão de crises. Em novembro de 2015, uma operação de vigilância realizada em Liubliana, na Eslovénia, registou um encontro entre o agente português e Sergey Pozdnyakov, identificado como oficial dos serviços secretos russos, durante o qual foi entregue uma pen drive que alegadamente continha informação classificada.
Após a confirmação das suspeitas, o caso foi comunicado à Procuradoria-Geral da República e entregue ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), que constituiu uma equipa especializada da Polícia Judiciária para conduzir uma das investigações mais sensíveis da história dos serviços de informações portugueses.
Durante vários meses, Carvalhão Gil foi alvo de vigilância permanente, escutas telefónicas e análise financeira. As autoridades identificaram mudanças significativas no seu padrão económico a partir de 2011, com depósitos em numerário sem origem justificada, num total de cerca de 73 mil euros entre 2010 e 2015, reforçando a suspeita de que recebia pagamentos pelos segredos transmitidos aos russos.
A investigação revelou ainda que o antigo agente mantinha contactos frequentes com cidadãos russos e georgianos e levava uma vida paralela, frequentando regularmente bares noturnos e mantendo relações pessoais que despertaram a atenção dos investigadores.
Em maio de 2016, as autoridades portuguesas receberam informações de que Carvalhão Gil viajaria para Roma, onde seria realizado um novo encontro com o seu alegado controlador russo. Em coordenação com as autoridades italianas, foi desencadeada a operação “Top Secret”, que culminou na detenção dos dois homens em flagrante.
Segundo a investigação, durante o encontro em Roma, o agente português entregou informações manuscritas e recebeu um envelope contendo 10 mil euros. Na posse do oficial russo foram encontrados documentos com nomes de elementos dos serviços de informações portugueses, enquanto Carvalhão Gil transportava documentos classificados e o dinheiro recebido.
As provas recolhidas sustentaram a acusação por espionagem e corrupção passiva para ato ilícito. Em fevereiro de 2018, Frederico Carvalhão Gil foi condenado a sete anos e quatro meses de prisão, tornando-se o primeiro funcionário dos serviços secretos portugueses a ser condenado por espionagem desde a criação do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP), no final da década de 1980.
O caso é considerado um dos maiores escândalos de segurança nacional em Portugal, devido ao elevado nível de acesso do antigo agente a informações estratégicas do Estado e da NATO, bem como ao impacto que teve na cooperação entre os serviços de inteligência portugueses e os seus parceiros internacionais.






