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Angola ganha importância como ponte estratégica entre África e os mercados da Ásia-Pacífico

Luanda — Angola poderá assumir um papel cada vez mais relevante nas cadeias internacionais de…

Marcelino Gimbi6 min de leitura3 comentários

Angola ganha importância como ponte estratégica entre África e os mercados da Ásia-Pacífico

Luanda — Angola poderá assumir um papel cada vez mais relevante nas cadeias internacionais de abastecimento, aproveitando a sua localização geográfica, os recursos naturais e o desenvolvimento de infra-estruturas como o Corredor do Lobito para aproximar África dos grandes centros económicos e tecnológicos da Ásia-Pacífico.

A avaliação consta de uma análise publicada pela revista internacional The Diplomat, que considera Angola um dos países africanos com maior potencial para funcionar como porta de entrada de recursos estratégicos do continente nos mercados asiáticos.

Entre os factores que podem reforçar esta posição está o Porto do Lobito e a ligação ferroviária que integra o chamado Corredor do Lobito.

A infra-estrutura estabelece uma ligação entre o litoral angolano e zonas produtoras de minerais na República Democrática do Congo e na Zâmbia. Entre os produtos com maior relevância encontram-se o cobre e o cobalto, matérias-primas essenciais para sectores como a produção de baterias, equipamentos electrónicos, armazenamento de energia e tecnologias associadas à transição energética.

A existência de uma rota atlântica capaz de ligar o interior da África Central aos mercados internacionais poderá aumentar o interesse de países asiáticos que procuram diversificar as suas fontes de fornecimento de minerais considerados estratégicos.

Para Angola, a importância do corredor não se limita à exportação de matérias-primas. O projecto poderá estimular investimentos em logística, armazenamento, indústria, transformação de minerais e outros serviços associados à cadeia de abastecimento.

Durante décadas, o petróleo esteve no centro da economia angolana. A queda dos preços internacionais do crude a partir de 2014 revelou, contudo, os riscos associados à elevada dependência das receitas petrolíferas e obrigou o país a procurar novas áreas de crescimento.

Desde então, o Governo tem procurado incentivar sectores como agricultura, indústria, mineração, logística e transformação de matérias-primas.

A redução do peso da dívida com a China é também apontada na análise da The Diplomat como um factor que poderá melhorar a margem de manobra financeira de Angola. O endividamento com Pequim, que chegou a atingir valores muito elevados, terá sido significativamente reduzido nos últimos anos.

Outra iniciativa destacada é a utilização de mecanismos de conversão de dívida para financiar investimentos sociais. Entre os exemplos está uma operação avaliada em 400 milhões de dólares relacionada com o financiamento de programas de educação, incluindo iniciativas destinadas a melhorar o acesso das raparigas à escola e a reforçar o capital humano.

A crescente importância do Corredor do Lobito poderá coincidir com uma expansão das relações económicas entre Angola e diferentes países asiáticos.

Além da China, tradicionalmente um dos principais parceiros económicos de Angola, países como Vietname e Coreia do Sul começam a ganhar maior relevância nas perspectivas de cooperação comercial e de investimento.

O Vietname surge como um potencial parceiro para aprofundar as relações económicas com Angola e explorar oportunidades de ligação aos mercados africanos. Do outro lado, Angola poderá procurar maior integração nas cadeias comerciais e produtivas do Sudeste Asiático.

Esta aproximação poderá permitir ao país reduzir a concentração das suas relações económicas externas e criar novas oportunidades para exportações, investimento e transferência de tecnologia.

Apesar dos esforços de diversificação, os hidrocarbonetos continuam a ocupar uma posição dominante na economia angolana.

O gás natural, entretanto, começa a assumir maior importância, sobretudo devido ao seu potencial para produção de electricidade e fornecimento de energia à indústria.

A transformação local dos recursos naturais é outra das prioridades. A Sonangol tem projectos destinados a aumentar a capacidade de refinação do país, incluindo a refinaria do Lobito.

O aumento da produção nacional de combustíveis poderá contribuir para diminuir a necessidade de importações, criar emprego especializado e fortalecer a indústria nacional.

Na área agrícola, a produção de fertilizantes também surge como uma oportunidade de industrialização. Projectos ligados à produção de amoníaco e ureia poderão reforçar a oferta nacional de fertilizantes e, simultaneamente, apoiar o crescimento da agricultura.

O potencial hidroeléctrico constitui outro dos activos estratégicos de Angola.

A disponibilidade de recursos hídricos e a existência de grandes barragens oferecem condições para aumentar a produção de electricidade, elemento fundamental para o desenvolvimento industrial e para a instalação de empresas que necessitam de grandes quantidades de energia.

Uma maior capacidade energética, combinada com melhores transportes e logística, poderá tornar Angola mais atractiva para investimentos industriais e para actividades de transformação de matérias-primas.

A importância do Corredor do Lobito poderá ultrapassar a dimensão angolana.

Uma ligação logística mais eficiente entre a África Central e o Atlântico poderá beneficiar também países vizinhos e estimular novas actividades económicas ao longo da rota.

O desenvolvimento de terminais, estradas, linhas ferroviárias, armazéns, centros logísticos e unidades de transformação poderá criar uma cadeia de negócios associada ao corredor.

Nesse cenário, Angola poderá posicionar-se não apenas como exportadora de matérias-primas, mas também como plataforma logística e industrial entre o interior do continente africano e os mercados internacionais.

A capacidade de concretizar este potencial dependerá, contudo, de vários factores.

A diversificação de uma economia fortemente dependente do petróleo exige reformas continuadas, estabilidade económica, instituições mais previsíveis e condições capazes de estimular o investimento privado.

A melhoria do ambiente de negócios e o reforço da transparência serão igualmente importantes para atrair capital estrangeiro e garantir que os grandes projectos de infra-estruturas produzam benefícios económicos mais amplos.

A Agência de Investimento Privado e Promoção das Exportações tem procurado captar projectos para áreas como agricultura, indústria, logística e turismo, numa tentativa de ampliar a base produtiva do país.

A posição geográfica de Angola, os seus recursos minerais e energéticos e a expansão das infra-estruturas podem criar uma oportunidade estratégica num momento em que grandes economias procuram tornar as suas cadeias de abastecimento mais diversificadas e resilientes.

Para os países asiáticos, Angola poderá representar uma porta de acesso a recursos estratégicos africanos. Para Luanda, a aproximação à Ásia-Pacífico poderá significar novos mercados, investimentos, tecnologia e parceiros comerciais.

O grande desafio será transformar essa vantagem geográfica e os recursos disponíveis em crescimento económico sustentável, emprego e melhoria das condições de vida da população.

Se conseguir avançar nesse sentido, o Corredor do Lobito poderá tornar-se uma das principais infra-estruturas da nova arquitectura comercial africana, colocando Angola numa posição estratégica entre o Atlântico, a África Central e os mercados da Ásia-Pacífico.

Fonte de referência: análise publicada pela The Diplomat, com informações sobre a posição estratégica de Angola, o Corredor do Lobito, diversificação económica e relações com os mercados asiáticos.

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